O povo indígena Tremembé, um dos mais antigos do Brasil e que atualmente residem no município de Raposa, Região Metropolitana de São Luís está chamando a atenção das autoridades para vulnerabilidade de integrantes da etnia que estão sendo vítimas da Covid-19. Pelo menos dez pessoas já contraíram sintomas fortes da doença e aguardam pela confirmação dos exames. A Covid-19 tornou-se mais uma ameaça à comunidade indígena, que fica localizada a 30 quilômetros da capital.

Segundo Rosa Tremembé, líder indígena Tremembé, o enfrentamento à doença está sendo grande desafio para eles, pois além de estarem passando por dificuldades financeiras e de alimentação, eles temem a falta de assistência médica. Ela afirma que alguns apresentaram sintomas da Covid-19. “Dez parentes, inclusive eu, Rosa Tremembé, a minha mãe e a minha avó.

Da família ainda não houve óbitos, contudo, o namorado da minha sobrinha que não é Tremembé teve no novo coronavírus e veio a falecer. A minha sobrinha foi a primeira a apresentar os sintomas. O atendimento médico foi feito aqui mesmo em Raposa no hospital do município que nos dispôs de um carro que nos levou até a unidade de saúde.

Nem se quer desceram do carro para abrir e fechar a porta do veículo, dando o entender para nós, que o atendimento simplesmente deveria ser feito pelo município, omitindo suas atribuições como órgão que deveria atender o povo indígena aonde quer que ele esteja”, lamentou Rosa Tremembé.

Rosa Tremembé revelou a O Imparcial que não percebeu nenhuma ação específica da Prefeitura de Raposa e nem de órgãos de defesa e proteção à causa indígena voltada para a comunidade, apesar de também terem um núcleo  de atendimento que deveria funcionar de forma mais efetiva. “No momento fomos atendidos pelos médicos do município que estão para atender qualquer pessoa.

A Funai se dispôs a doar cestas básicas para as famílias de nosso povo, bem como, para o povo Tremembé de São José de Ribamar e Akroagamela  em Viana. E temos  um núcleo que nos atende aonde fica a antiga sede do Incra no bairro do Cruzeiro do Anil, que no dia 22 de março entrou em contato conosco para saber o número de famílias para que pudessem receber as cestas básicas. Mas até hoje estas cestas básicas não chegaram até a nós. Nos disseram que estamos na lista da distribuição nas aldeias do Maranhão e que continuemos aguardando. Nós estamos esperando quem sabe um dia chega”, disse ela esperançosa.

Em busca de respeito e reconhecimento

A líder indígena explicou que os Tremembé fazem parte da teia dos povos indígenas e comunidades tradicionais do Maranhão, onde mutuamente se articulam em busca do fortalecimento de sua identidade enquanto povo que está sofrendo com os reflexos do capitalismo e de tudo que podem destruí-los.

“Eu não poderia deixar de citar esta teia onde conjuntamente e espiritualmente estamos em tempos de fragilidade e pandemia, já que não podemos estar presente fisicamente, estamos na busca desse fortalecimento. É uma rede de articulação onde a gente procura debater sobre nossas dificuldades dentro dos nossos territórios e de nossas comunidades sobre que forma podemos nos ajudar. Além disso, contamos com o apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão de Direitos Humanos da OAB Maranhão que tem solicitado a Defensoria Pública da União (DPU)uma atenção de nossos direitos como povo indígena”, ressaltou  Rosa Tremembé

Rosa Tremembé afirmou que também não há um censo populacional para saber o número de pessoas pertencentes à etnia. No século XVIII foram aldeados pelos Jesuítas nas missões de Tutoya (Tutóia-Maranhão), Aldeia do Cajueiro (Almofala) e Soure (Caucaia).”Atualmente a maioria são descendentes dos Tremembé vindos da região norte do Ceará, como de Acaraú e Almofala, distrito do município de Itarém, e da região do Delta das Américas, como Barreirinhas, Paulino Neves e Tutóia que faz parte da Rota das Emoções. “A minha família daqui de Raposa que se autodeclarou descendente da etnia, já são cerca de 100 pessoas, mas há Tremembé em diversas localidades do estado”, contou a líder indígena.

Ela afirma ainda que os primeiros registros da existência dos Tremembé na Grande Ilha são bem mais antigos do que os índios Tupinambá, considerados os primeiros habitantes de São Luís, quando batizada por eles de Upaon-Açu.

“Ainda estamos presente no município de Raposa, na área do Inhaúma, Vila Reviver, Vila Lacy, além de Paço do Lumiar, em Mojó e em São José de Ribamar na comunidade do Engenho. Estamos presente aqui na Grande Ilha e para sermos reconhecidos tivemos que levantar a nossa voz para dizer que está aqui existimos e resistimos”

Vale ressaltar que os Tremembé foram declarados como não existentes pelo então governador da Província do Ceará (José Bento da Cunha Figueiredo Júnior), após decreto de 1863. Antes disto, em 1854, os índios perderam o direito da terra pela regulamentação da Lei da Terra. Estes ressurgem no cenário cearense nas décadas de 1980 e 1990, quando são reconhecidos pela Fundação Nacional do Índio.

“Aqui em Raposa nós não temos um território para chamar de nosso, embora a nossa presença seja de muitos séculos. Somos povos do litoral e nossa cultura originária vem da pesca e da agricultura. Com a expansão dos moradores que vieram depois de nós fomos perdendo nosso espaço de vida. Estamos comprimidos, sem espaço”.

 

 

 

Da Redação com informações do O Imparcial