As recomendações de isolamento social e máscaras para salvar as pessoas de um vírus altamente contagioso e letal não são novas. O mundo presenciou isso, há 102 anos, durante a gripe espanhola, a maior pandemia do século 20, causada pelo vírus influenza.

A gripe que se alastrou por todos os cantos do mundo, entre 1918 e 1919, possuía sintomas muito diferentes da gripe sazonal e benigna: provocava febre alta, sintomas neurológicos, digestivos e sérias complicações pulmonares, além de vitimar uma faixa etária incomum, pessoas entre 15 e 50 anos, reincidindo também de forma grave em doentes considerados curados. Apesar de mais de um século transcorrido, esse período da história deixou lições importantes para a saúde global.

As mais importantes delas, que reprisam ainda hoje, foram fruto dos estudos do infectologista Thomas Dyer Tuttle, conhecido como Dr. Tuttle, nascido em Fulton, no Missouri, em 1869. Thomas recebeu seu diploma de bacharel no Westminster College, fundado em 1852, e então se mudou para a cidade de Nova York, em 1889, para obter um diploma de médico no atual Columbia College, fundado em 1851.

Durante o primeiro ano da faculdade de medicina, ele enfrentou a pandemia chamada “gripe russa”, causada pelo vírus H2N2, que durou de 1889 até 1890. A doença matou cerca de 1,5 milhão de pessoas mundo, sendo 2.500 mortes em Nova York.

Depois de se formar na Columbia em 1892, Tuttle trabalhou no hospital Mount Sinai, também na cidade. Mais tarde, em 1896, ele retornou ao Missouri, onde se casou com Lucile. Alguns anos depois, o casal se mudou para Montana, onde Tuttle seguiu uma carreira médica e tornou-se secretário e diretor executivo do conselho de Saúde do estado em 1903.

Pessoas andando de máscaras nas ruas durante a pandemia de 1918 Foto: Max Loudon Courtesy Grace Loudon MacAdam
Pessoas andando de máscaras nas ruas durante a pandemia de 1918 Foto: Max Loudon Courtesy Grace Loudon MacAdam

A varíola devastou a população no início de 1900, mas o argumento de Tuttle por trás da ordem era que o levantamento de quarentenas encorajaria as pessoas a se vacinarem. Em 1909, Tuttle ganhou visibilidade nos jornais de Montana pela sua opinião ‘impopular’, favorável ao isolamento social.

Apesar das polêmicas, Tuttle e a diretoria de Saúde do estado promoveram vacinações obrigatórias contra varíola, oferecendo-lhes gratuitamente e fazendo circular um panfleto divulgando seus benefícios.

O epidemiologista Roberto Medronho, professor titular e chefe da Divisão de Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), elogia a contribuição de Tuttle na saúde pública:

“Ele foi um grande epidemiologista, o Dr. Fauci (famoso no combate a pandemia da Covid-19) do século 20. Teve uma participação ativa no combate a ‘crise espanhola’, inclusive solicitando o isolamento social, que na época diversos grupos foram contrários. Ele enfrentou o movimento anti-vacina da varíola no início do século, e mesmo depois de cem anos, vemos a mesma lógica do movimento contra a ciência”, diz.

Em 1915, com a varíola sob controle nos Estados Unidos, Tuttle aceitou uma nova posição como comissário de saúde de Washington. Três anos depois, em julho de 1918, a gripe espanhola chegou ao estado. Em setembro, os casos começaram a subir, e as autoridades de saúde pública começaram a se preocupar com a segunda onda.

No mesmo mês, o Conselho se reuniu para discutir preocupações sobre a gripe, e após a reunião, Tuttle conversou com um jornal para avisar os cidadãos que a doença retornaria. Por causa das limitações do Conselho de Saúde do estado, Tuttle não foi capaz de executar muitas ordens até novembro. Mas ele usou sua posição para incentivar as autoridades locais a anunciar medidas rigorosas para conter a pandemia no início de outubro.

Em 5 de outubro de 1918, o prefeito Hanson apresentou suas medidas para conter a epidemia em Seattle, como fechamento de lugares públicos, multa se não estivesse usando máscaras. E outras cidades seguiram o exemplo.

A doutora em História das Ciências e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Christiane Maria Cruz de Souza, reconhece que Tuttle sabia da gravidade da doença:

“O infectologista reconheceu os sintomas e sinais, não sobrando dúvidas sobre as medidas a serem adotadas para controlar a epidemia, pois reconhecia a grande capacidade de transmissão. Tuttle sabia que um indivíduo infectado se tornava um agente disseminador da doença (ao falar, tossir ou espirrar, os quais vinham a ser inalados pelos que se encontravam na circunvizinhança). Não havia tempo hábil para se produzir uma vacina em conformidade com os protocolos exigidos pela ciência. Portanto, a recomendação era que evitasse a transmissão da doença de um indivíduo para outro”, aponta.

O infectologista levou os jornais a espalharem as recomendações de saúde, compartilhando que a gripe poderia ser impedida de se tornar epidêmica com a seguinte ajuda dos cidadãos: não espirrar ou tossir nas mãos, se manter longe das multidões e ficar em casa se tiver algum sintoma.

Recomendações de isolamento em jornais de 1918 Foto: Reprodução
Recomendações de isolamento em jornais de 1918 Foto: Reprodução

A resposta à gripe espanhola em cidades como Seattle, Washington, Nova York, St. Louis e Los Angeles tiveram sucesso com o uso de medidas de saúde pública mais rigorosas, enquanto San Francisco e Filadélfia eram menos restritivas e, como resultado, aumentaram as mortes por gripe.

Medronho aponta que, assim como em 1918, o isolamento social é a única vacina disponível no momento:

“O isolamento social é uma medida amarga, especialmente em quem tem situação financeira baixa, mas sem ela existem duas crises: a financeira e de saúde. Na gripe de 1918, as cidades dos EUA que não adotaram o isolamento mostram além das mortes, a recuperação econômica foi mais devagar. O afastamento social é a única vacina disponível no momento”, defende.

Tuttle agia de forma mais firme à medida que a gripe progredia. Ele levantou uma ordem estadual para usar máscaras em público após o Dia do Armistício, em novembro de 1918, e com mais uma onda da gripe, por conta do relaxamento das medidas de segurança, as pessoas foram ordenadas a permanecerem em suas casas.

Em dezembro, Tuttle viajou para Chicago para uma conferência nacional da Associação Americana de Saúde Pública dedicada ao combate à doença, e essa reunião parece ter endurecido ainda mais sua postura, o que resultou na sua demissão do cargo.

Após esse período, Tuttle mudou-se para o Kansas, onde aceitou o cargo de Epidemiologista do Conselho Estadual de Saúde. Nesse papel, ele começou a temer que outra epidemia de gripe aparecesse em 1919, mas não mencionou nenhuma palavra de incentivo. Sua postura foi pessimista quanto à capacidade de seu país de se preparar para a próxima pandemia.

Dois anos depois, Tuttle renunciou ao seu cargo no Kansas, citando a necessidade de um salário maior para poder pagar pela educação universitária de seu filho. Em seu relatório, o Conselho de Saúde lamentou sua saída.

O último trabalho de Tuttle o levou de volta a Montana para iniciar um hospital de veteranos em Fort Harrison. Mais tarde, ele se mudou para Chicago para praticar medicina. Em 1933, ele e sua esposa se aposentaram na Califórnia, onde passou seus últimos de vida cuidando de orquídeas, falecendo em 1942, aos 72 anos.

Mais de um século depois, o trabalho do epidemiologista gera repercussão positiva na comunidade científica brasileira:

“As recomendações do Dr. Tuttle continuam válidas para os dias atuais. Assim como em 1918, políticos e empresários estão irritados com as medidas que, embora impopulares, surtiram efeito naquela ocasião. A grande diferença é que a ciência avançou consideravelmente e nesse momento temos laboratórios de ponta trabalhando a todo vapor para descobrir uma vacina eficaz e com poucos efeitos adversos para proteger contra o vírus”, explica o consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Leonardo Weissman.

 

 

Da Redação com informações da Época